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Humberto Samuels (el Tata) y Smashleen Gutiérrez (Selva) en Ceniza negra, de Sofía Quirós.

Cinza preta narra a história de Selva, uma adolescente de 13 anhos que vive com o seu avô, o Tata, numa aldeia do Caribe de Costa Rica. Sem o seus pais, que já não estão com ela para orienta-la, e cercada dum entorno feroz que influência cada um de seus atos e emoções, Selva irá adquirindo uma consciência e uma sabedoria inusitada numa menina da sua idade. Deverá defrontar-se não só ao Tata, que à primeira vista tem “visões”, mas a uma mulher maior e alcoolizada que os faze companhia e a educa em a sua feminilidade, e com a própria descoberta de o seu corpo quanto a esse outro grande corpo que é a natureza na grande cultura latino-americana. Então é como Selva descobrirá que a morte não é a interrupção da vida, mas uma mudança na outra dimensão, e isso a dirá algo, a equipará de uma visão. Ceniza negra_aficheSobre esta premissa dramática que convirja com uma cosmovisão pré-colombiana hoje em regressão numa América Latina cada vez mais urbana e cosmopolita, a costarriquenha nascida em Argentina Sofía Quirós Úbeda estreia-se no longa com um filme excelente, inusitado também para uma cineasta jovem com três filmes curtos em sua posse (incluídos os bem-vindos e galardoados Al otro lado Selva). Cinza preta, que recebeu o apoio de Ibermedia para a coprodução na convocatória 2017, estreou-se no recente Festival de Cannes, no qual foi candidato a Câmera d’Ouro e o Grande Prémio da Semana da Crítica, e no momento concorre com o Prémio ao Melhor Diretor Emergente ao Festival de Munique.

Escreve TOÑO ANGULO DANERI

Quando leio os créditos do teu filme me atrai a atenção que para a concepção, desenvolvimento e execução tomaste parte nos inúmeros laboratórios e workshops como O Viajem Andino do Herói, 3 Puertos Cine, Bolívia Lab ou o Curso de Desenvolvimento de Projetos Cinematográficos Ibero-americanos. ¿Em que medida você crê que essas experiências têm sido importantes para que Cinza pretaseja o extraordinário longa filme que é?

O desenvolvimento de um longa filme independente, sobre tudo latino-americano, é um processo muito longo. No caso de Cinza preta foram quatro anhos, mais um quinto anho de scouting, casting, pós-produção e filmagem. A parte final durou um anho, mas tudo o que abrangeu o desenvolvimento, a escritura e pesquisas de financiamento foram quatro anhos.

Como diretor ou produtor um se sente a vezes um pouco extraviado nesse período, e é muito importante o feedback de professionais, companheiros e colegas que te façam estar ativo no teu filme, perceber como vai avançando nesse longo caminho. Nesse sentido, os laboratórios foram como sonografias que me iam narrando como ia o processo de gestação. É muito importante a participação neles porque o desenvolvimento de um filme é um trabalho muito solitário. É como se um estivera lutando por algo que parece uma fantasia ou um sonho que não vais cumprir. Estar conectado com outros colegas que estão no mesmo processo é de muita ajuda.

No caso de Cinza preta conseguimos certas conexões fundamentais. Por exemplo, a coprodução com a nossa companheira Sazy Salim [de Murillo Cine], que é a nossa coprodutora argentina, e a quem conhecemos no workshop de Bolívia Lab. Ou com a nossa agente de vendas Agathe [Valentin], que é de Totem [Films], a quem conhecemos noutro laboratório. É perceber que podes ir criando filmes com pessoas que vão crescendo com você, que estão a teu mesmo nível, não é necessariamente olhar para cima. Participar no Curso [de Desenvolvimento de Projetos Cinematográficos] da Fundação Carolina e Ibermedia na Espanha foi fundamental porque me permitiu aprofundar na escritura do script.

La actriz protagonista de Selva y Ceniza negra Smashleen Gutiérrez junto a la directora Sofía Quirós. © Mariana Murillo.

A atriz protagonista de Selva e Cinza preta Smashleen Gutiérrez ao lado da diretora Sofía Quirós. © Mariana Murillo.

Queria falar um pouco disso, de como uma menina se defronta a perda e ao luto desde uma visão mais sábia, compreendendo que a morte não é que uma troca da pele

Cinza preta é como um prolongamento em longa filme do aquilo que foi Selva, o teu filme curto anterior. A protagonista é agora a iminente adolescente que no Selva começava a deixar de ser uma criança. ¿Como é que foi o processo, tiveste a visão de Cinza preta a partir de Selva, ou foi o teu filme curto o primeiro esboço ou experimento de um longa filme que você já tinha na mente?

A partir de que Cinza preta nasceu, observei uma conexão entre o filme curto e no longa. Não só uma conexão criativa, mas também na produção. O recorrido que abreu Selva na Semana da Crítica [de Cannes] deu lugar a participar no laboratório de projetos Next Step, que é feito em colaboração com o TorinoFilmLab e no qual conhecemos ao nosso produtor. Isso abreu as portas para que Cinza preta fora visto e selecionado para a Semana da Crítica. É muito interessante como um filme curto pode não só ser uma aproximação criativa, uma primeira posta em cena e uma exploração ao nível audiovisual, mas como abre portas a nível da produção. No caso de Selva, fazia dois anhos que estava desenvolvendo Cinza preta e estava justamente no laboratório 3 Puerto Cine, que tem diferentes fases. Na primeira fase nos pediram que trouxéramos umas imagens para a segunda fase. Foi aí que percebeu que fazia unos dois anhos que não filmava e não punha na pratica os meus conhecimentos como diretora, porque é tão importante a escritura como a pratica do trabalho cinematográfico. Assim no meio desse workshop decidi que ia fazer um filme curto, o qual me permitiu “baixar na terra” do ambiente que estava levantando para Cinza preta, visual e sonoro, e me permitiu por vez primeira filmar na Costa Rica, pois somente tinha filmado na Argentina. Selva também me permitiu explorar como era dirigir a adolescentes e crianças, que não tenha feito anteriormente, e me levei uma surpresa quando conheceu a Smashleen Gutiérrez, que acabou por ser a atriz protagonista e peça fundamental dos dois filmes.

Keha Brown (Winter) y y Smashleen Gutiérrez (Selva) en Ceniza negra.

Keha Brown (Winter) e Smashleen Gutiérrez (Selva) no Cinza preta.

A paisagem, como é que é um personagem mais, tem ação, reação e conflito. É o conflito interior do personagem exteriorizado no entorno

Nos dois filmes a temática de fundo é como uma menina-púbere-adolescente vive a separação de um ser querido. No Selva, essa menina-púbere o vive de uma maneira de certo modo inconsciente, enquanto no Cinza preta a adolescente o faze já desde uma consciência mais madura. Agora gostaria de que detalharas como chegaste a isso: a separação como eixo temático, que no fundo não deixa de ser uma perda e um luto.

Eu acho que é muito interessante a análise que você faz do vínculo temático que há entre Selva e Cinza preta. Mesmo que são filmes diferentes, Selva, o filme curto, é muito mais experimental, uma mistura entre documental e ficção, quase como uma ilusão onde não há uma história lineal. E ainda que Cinza preta segue mantendo esse ambiente, se tem uma história com o princípio, desenvolvimento, e desenlace. E também está relacionado com o que de início, no filme curto o personagem de Selva vive as separações de uma maneira inconsciente, e em Cinza preta ela faz isso de maneira consciente.

O eixo temático é a separação, mas sobretudo e mais profundamente, em Cinza preta é o que eu chamo “apreender a soltar”: como o passar pela experiência da morte em vida inevitavelmente nos faz ter que soltar, que entender que a essência da vida é a separação. Eu creio que em dois filmes considerei que era importante que a protagonista passara por essas perdas, essas separações e issos lutos desde um lugar muito empoderado, desde um lugar que fora visto não como uma tragédia o como um personagem vítima, mas como um personagem que entendesse a morte como uma transformação. Queria falar um pouco de isso, de como uma menina enfrenta a morte desde uma visão mais sábia, entendendo que a morte é só uma mudança da pele, que morrer só é deixar o nosso corpo e que podemos enfrentar o luto e a morte desde esse lugar sem tragédia.

Como tens dito, o outro elemento comum é a atriz protagonista Smashleen Gutiérrez, ¡que nos dois filmes está impressionante! ¿Compartilhes a ideia de que ela é o fundamento que te permitiu construir dois filmes brilhantes, uma após a outra?

Nós estamos muito felizes porque Cinza preta acabou de sair há um mês e a gente que tem visto destacou que a sua atuação é maravilhosa. Eu acho que é algo que venho de estar ciente agora que posso ver com um pouco mais de distância, o talento, a frescura e a capacidade desta menina para gerenciar uma experiência que poderia ser dolorosa com uma solvência e uma atuação muito genuína.

Eu a conheci dois dias antes de filmar o filme curto Selva. Estivemos a fazer o casting na Ilha Tortuguero em Costa Rica, e chegamos a uma quitanda a comprar umas frutas. Eu estava com a minha diretora de fotografia, que se chama Francisca Sáez Agurto e é de Chile, e ela me disse: “Olha, aí tens a Selva”. Eu virei para olhá-la e foi como amor à primeira vista. Eu a tenha descrita no script tal qual era ela, o seu corpo, o seu rosto, a sua olhada… ¡foi como se a conhecera de outras vidas!

Creio que definitivamente tem sido o fundamento que me permitiu construir estas duas produções cinematográficas. Primeiro, porque é muito natural e tem um talento completamente fora do comum; e segundo, porque temos logrado fazer um vínculo muito forte como amigos, como diretora e atriz, que nos permitiu as duas desenvolver o personagem com uma grande maduração.

Parte del equipo de producción de Ceniza negra en la 58ª Semana de la Crítica de Cannes 2019. © Semaine de la Critique.

Parte da equipe de produçâo de Ceniza negra na 58ª Semana da Crítica de Cannes 2019. © Semaine de la Critique.

Nós em América Latina temos uma história muito ligada a natureza e a nossos animais… que temos ido perdendo

Eu gostaria de te questionar também pelos atores que a acompanham em Cinza preta: Hortensia Smith (Elena), Keha Brown (Winter) e o avô Humberto Samuels (o Tata), do qual tenho entendido que se estreia como ator ¡aos 83 anhos!

Todos os atores do filme são atores naturais, como eu gosto de chamá-los. Todos são da província de Limón, no Caribe da Costa Rica, uma região particular onde um pensaria que toda Costa Rica é como se vê no filme, mas não é assim. Limón tem algumas paisagens e uma cultura que é a mistura de muitas regiões com descendência africana, chinesa, indígena, etc. Há uma mistura de raças, de culturas e de costumes que também estão refletidas na paisagem do lugar.

Hortensia Smith é uma dançarina que conhecemos por referência. Desde que a vimos nos pareceu que o seu manejo do corpo era muito interessante, a sua capacidade para controlar a sua expressão. Ela nunca tinha atuado na sua vida, tinha feito um pequeno filme curto, mas nunca num papel tão profundo como em Cinza preta. Nós gostámos muito dessa capacidade de contar com o seu corpo. Além disso, ela é uma pessoa que tem uma vida muito interessante pela frente. Isso se olha nas suas cicatrizes, na sua postura e nas suas feridas.

Humberto Samuels foi um dos trabalhos mais potentes do processo de Cinza preta. Tomamos muito tempo em encontra-lo. Levamos a cabo mais de setecentos castings, nos quais vimos muitos adultos maiores e nenhum nos convenceram; ou eram muito adultos ou muito jovens. Até que chegamos com Florencia Rovlich, a diretora de casting, a um lar de idosos onde conhecemos a Humberto Samuels. Humberto estava jugando xadrez com a sua carteira de Winnie de Pooh e as suas cores. Ele exprimia essa ternura e essa regressão na infância que eu expus no script, bem muito semelhante a Smashleen, e o seu carisma era como o de um rock star digno de fazer um filme. A soma da força e da história pessoal de Humberto com o personagem resultou numa mistura muito interessante.

O casting de Keha foi também muito interessante. Estávamos buscando a esta pessoa que interpreta o personagem de Winter, que ao início ia ser mais maior, mas quando Keha chegou ao casting, um dos setecentos castings, ela nos cativou. Na verdade, Keha tem 12 anhos, mas parece ter 18 ou 20 ou mais, e essa ambiguidade que o seu corpo conta, de ser adulto e jovem, é interessante e nós cremos que representava uma das temáticas do filme.

Humberto Samuels (el Tata) y Smashleen Gutiérrez (Selva).

Humberto Samuels (o Tata) e Smashleen Gutiérrez (Selva).

A paisagem pode se trabalhar desde o script para que quando filmes, o filme absorva a magia que nos oferecem os entornos naturais

Os quatro personagens têm um pé noutro mundo, ou noutra dimensão da vida, para ser mais exatos. Desde uma visão ocidental, isso comumente se entende como uma “fantasia”. Pero em América Latina sabemos que não é assim. ¿Poderias narrar quais são os referentes “ticos” (costarriquenhos) desta conexão com o “mais-ali-da-vida” pelas que passam todas as relações em Cinza preta?

É uma boa maneira de descrevê-los. Há personagens que têm mais os pés na terra que outros, e isso está relacionado com múltiplas coisas. Primeiro, confio muito no cinema que não se fecha por completo, que de alguma maneira deixa certas coisas abertas para que o espectador as possa completar e chegue a suas próprias conclusões sem que tudo esteve mastigado. Nos meus primeiros trabalhos, sobretudo em Selva, arrisquei a construção de personagens que são ambíguos, que estão com um pé aqui e um pé noutro mundo.

Para mim, a magia e a fantasia no filme eram muito importantes porque são os instrumentos que usa o personagem para poder gerenciar tudo o que o passa no filme.

Selva se agarra a sua infância e essas crenças de outros mundos possíveis que fazem que não seja qualquer menina de 13 anhos, mas uma menina de 13 anhos que no seu interior ainda crê na magia. Além disso, ela conecta com o delírio que vive o seu avô, que é o segundo personagem mais importante, e que é algo que ocorre quando chegamos ao fim da vida e temos regressões a infância que nos fazem volver a crer na magia, a deixarmos levar por histórias, a jogar com a vida. A magia na vida diária no filme liga aos dois personagens, e eu quis que essa mesma magia se vira através de todos os personagens, as paisagens, o som. De alguma maneira é levar o mundo interior do personagem a cada momento da posta em cena do filme.

Para falar-te de referentes “ticos” ou costarriquenhos, eu te posso dizer que tive uma conexão muito forte com as aldeias em que estivemos filmando na província de Limón, que som aldeias muito interessantes. Por exemplo, Cahuita ou Manzanillo, que têm comunidades com descendência africana muito bem enraizadas. Estive presente em vários enterros e velórios que fizeram nestas aldeias, e me pareceu impressionante como celebravam a morte com muita felicidade, com uma visão muito menos trágica que como passa nos enterros tradicionais em ocidente. Para mim foi um detonador e comecei a pesquisar como a morte é vista como algo muito natural nessas comunidades. Também fiz outro tipo de pesquisas, como o tema da reencarnação noutras culturas, ou temas universais como o símbolo da serpente. Que a serpente mude da pele representa de alguma maneira o facto de que quando morremos só deixamos o corpo e retornamos a nascer como outra coisa. Temas que foi pesquisando pouco a pouco e incluindo nesta narração.

Sofía Quirós en la Semana de la Crítica. © Semaine de la Critique.

Sofía Quirós na Semana da Crítica. © Semaine de la Critique.

Em Migra Cine empezamos a entender que o cinema se pode fazer com diferentes nacionalidades e como a união pode ajudar as nossas industrias tão pequenas e incipientes

Ainda que o entorno seja o Caribe, tudo espectador de América Latina pode sentir o diálogo que aí há com outras cosmovisões pré-colombianas.

Está relacionado com que nós em América Latina temos uma história muito ligada com a natureza e com os nossos animais… que temos ido perdendo cada vez mais. Quis fazer uma homenagem a essa origem da que todos vimos e na que todos estivemos tão ligados com a natureza. Isso engloba um diálogo latino-americano que risquei neste filme: o de retornar a expor um vínculo, uma conversa entre pessoas e animais, como passa com o Tata e as suas cabras imaginárias, com Elena e as serpentes, e com o som das rãs que representam a morte. É o poder de narrar através dos símbolos dos animais.

Outra coisa que eu vejo na tua cinematografia é a transformação do entorno num personagem mais de teus filmes. Em o teu filme curto documental Al otro lado era esse belo e verde bairro marginal de Buenos Aires, asfixiado pelo aterro sanitário tóxico que põem ao lado. Em Selva e Cinza preta, é a exuberante vegetação da selva costeira da Costa Rica. ¿Que é o que te faz elevar ao esse status de personagem aos entornos que escolhes?

Você não viu Entre tierra, um filme curto que filmei entre Al otro lado e Selva, que o faz o meu segundo filme curto, Selva o último e Cinza preta o meu primeiro filme longa. Estas quatro produções estão ligadas porque eu trabalho o entorno como um personagem mais desde o script. A paisagem para mim é algo que explorar como uma maneira de representar o que passa ao personagem, o conflito interior do personagem exteriorizado no entorno. Tenho trabalhado com paisagens naturais que são, em definitiva, um instrumento de comunicação, mas que fazem evoluir a história. A paisagem, como é que é um personagem mais, tem ação, reação e conflito. A paisagem pode se analisar, se trabalhar e se amadurecer desde o script para que quando filmes, o filme absorva a magia que nos oferecem os entornos naturais.

Uma grande parte da cinematografia latino-americana atual é essencialmente urbana, quase diria “capitalina” (Buenos Aires, México DF, La Habana, Santiago de Chile). ¿Que é o que te faz distanciar-te desses entornos particularmente conhecidos e conceber as tuas histórias em lugares menos explorados?

É verdade que uma grande parte do cinema latino-americano é urbano. Pessoalmente me interessa desenvolver estas histórias em lugares naturais, talvez porque eu vivi na cidade e era o que eu necessitava da Costa Rica. Também uma parte de mim está muito ligada a natureza. Eu adoro criar histórias em lugares que não conheço bem porque há algo que se quebra por dentro, uma parte do cérebro que se ativa e está mais receptiva ao novo, a intuição, a descobrir e a escolher onde eu posso a minha câmara e minha olhada. Quando já estás mais acostumado a algo é difícil não cair na rutina. Trocar o espaço, criativamente, me permitiu ajustar a olhada.

Smashleen Gutiérrez y Keha Brown en el paisaje natural de Ceniza negra.

Smashleen Gutiérrez e Keha Brown na paisagem natural costarriquenho de Cinza preta.

A diretora de fotografia não faz só fotografia, a produtora não só produz e a diretora não só escreve. Há uma consciência de criação coletiva que nasceu entre mulheres

Al otro lado e, sobretudo, Selva obtiveram uma quantidade impressionante de prêmios e reconhecimentos internacionais, algo pouco frequente numa diretora jovem com só três filmes curtos feitos. ¿Quais são as tuas expectativas com Cinza preta, cujo arranque na Semana da Crítica de Cannes não pode ser mais prometedor?

Al otro lado foi muito bem porque era um filme curto muito particular, ambiental, que é um tema sobre o que agora a sociedade necessita muito material. Foi muito bem não só em festivais, também em escolas, colégios, foros e grupos de estúdio. Era um filme curto que pedia ser visto porque trata uma temática da que necessitamos falar. Aí, eu creio, está o seu êxito, apesar de ser um filme corto muito amador, toca um tema muito sensível e atual.

O êxito de Selva está relacionado com o risque, com como está narrado e com a frescura de uma narrativa que se arrisca e se atreve a narrar as coisas de uma maneira muito distinta.

Quanto as expectativas, nós não tínhamos muitas mais que desfrutar da première e que o filme fora visto. Agora mesmo Cannes é o festival mais importante desde o ponto de vista da indústria cinematográfica, e a felicidade mais grande foi saber que podia ser visto. Também, o festival ia abrir portas a muitas outras janelas, como passou com o espaço da Semana da Crítica. Então nós estamos muito felizes de retornar a casa de boa maneira.

Cinza preta é uma coprodução de Sputnik Films da Costa Rica, Murillo Cine da Argentina, La Post Producciones de Chile, e Promenades Films de França. Tenho entendido que Selva também teve o apoio de produtoras de Costa Rica, Chile e Argentina. ¿Que podes dizermos sobre esta afortunada realidade que já é para o cinema latino e ibero-americano de “coproduzir para produzir”?

Tive a oportunidade de estudar na universidade pública de Buenos Aires, a UBA, aí foi onde me rodei de colegas de toda América Latina. Cresci fazendo cinema, aprendi a fazer cinema rodeada de muitas nacionalidades. Na universidade fundei com outras duas companheiras um coletivo que se chama Migra Cine, com as que ainda trabalho; elas são minha diretora de fotografia [Francisca Sáez Agurto] e a diretora de casting de Cinza preta [Florencia Rovlich]. Começamos a entender o cinema como algo que abre fronteiras, que se pode trabalhar com distintas nacionalidades, e como a união entre os países pode ajudar a nossas industrias que são tão pequenas e incipientes.

No caso da Costa Rica, para nós foi muito importante porque, apesar de ter um fundo para cinema, ainda não tem uma lei do cinema e a capacidade de financiamento é muito pequena, com o qual se não tivéramos podido coproduzir, teríamos feito o filme de uma maneira muito menos professional.

“Coproduzir para produzir”, como você diz, oxalá não fora uma necessidade, oxalá se puderam fazer filmes com produção nacional, mas também é um instrumento que quando se faz, abre muitas portas e consegue fazer crescer o filme, transformando-o em algo muito mais universal.

Eu adoro criar histórias em lugares que não conheço bem. Há uma parte do cérebro que se ativa e está mais receptiva a intuição

Algo que também me atrai a atenção nos créditos foi a grande presença de mulheres na tua equipe de trabalho. ¿É um pouco a extensão natural de Migra Cine?

Efetivamente, é a extensão desse coletivo que formamos. A origem do filme procede deste grupo de garotas que te dizia. Eu acho que temos uma maneira de fazer cinema na que a diretora de fotografia não faz só fotografia, a produtora não só produz e a diretora não só escreve, mas há uma consciência de criação coletiva, e essa consciência nasceu em um grupo de mulheres.

Quando foi avançando o filme, naturalmente ocorreu que quase o 100% dos departamentos são liderados por mulheres e se começou a dar este espaço de maneira natural. Creio que também foi muito seletiva com os homens que entraram na equipe porque queria que as mulheres que lideravam os departamentos se sentiram seguras. Não queríamos uma presença masculina que não entendesse isso e que se sentira molesto por não liderar. E assim foi, são homens maravilhosos, com uma grande capacidade de intuição e de integração além de sexo masculino ou feminino, e que se preocupar com o filme e não com outras coisas como o ego. O filme tem uma equipe muito equilibrado, todos nos damos muito bem e as mulheres fizeram um trabalho maravilhoso.

De Entre tierra, o teu segundo filme curto, efetivamente só tenho visto o trailer. Ainda assim, me confirmou outra sensação que tive com Selva e Cinza preta: o teu bom olhar (afetuoso, compassivo, imensamente empático) para mostrar a nudez dos corpos da gente maior. ¿Como é que chegaste a essa sensibilidade?

Entre tierra foi a minha tese de graduação e é um filme sem diálogo. Foi muito importante porque me permitiu explorar como narrar uma história sem depender da linguagem verbal e como confiar na linguagem corporal e da paisagem.

Trabalhar a idade adulta no cinema é um tema muito delicado. Me sento muito cômoda falando sobre a adolescência ou a infância porque são períodos que eu vivi. De facto, se um analisa, quase todos os primeiros filmes tendem a ser da adolescência ou da infância. Eles são lugares nos que, de alguma maneira, nos sentimos com o direito de propriedade. Mas o trabalho do cinema tem que ver com enfrentar-nos a narrar histórias desde outras perspectivas e realidades que não conhecemos. E para mim, a velhice é uma realidade que claramente não tem vivida na minha carne, portanto foi muito delicada na forma de retratar, como você diz, a nudez dos seus corpos. Uma sensibilidade para poder trata-la desde um lugar frágil, mas empoderado e com muita sabedoria.

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