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Luis Ospina retratado en 2009 por la artista © Karen Lamassonne.

De certo em certo tempo aparece neste site o nome do caleño Luis Ospina. Referia-o, por exemplo, Laura Mora na entrevista que lhe fizemos a propósito de Matar a Jesús, a sua monumental primeira obra. Ao perguntar-lhe como tinha encontrado a protagonista do seu filme (uma jovem que nunca tinha representado antes disso), disse-nos que foi numa sala de cinema a ver Todo comenzó por el fin, o documentário de Ospina sobre Andrés Caicedo, Carlos Mayolo e ele próprio, núcleo fundacional do Grupo de Cali, ou “Caliwood”, o movimento que revolucionou o cinema colombiano nas décadas de setenta e oitenta. Tempos antes, numa bela crónica sobre a sua experiência no segundo Taller Andino de Ideas organizado na cidade de Lima pelo Ibermedia, a cineasta peruana Sofía Velázquez lembrava como tinha reagido à notícia de que Ospina estava entre os mestres da oficina. «Quando recebi o e-mail a dizer que tinha sido aceite no Taller Andino, pensei: “Nunca me aceitam em nada e, quando acontece, é na minha própria cidade”», confessava Velázquez, para depois acrescentar: «Quando fiquei a saber o programa do Taller, fiquei entusiasmada. Os assessores convocados para esta edição eram todos ótimos, mas eu li no ecrã “Luis Ospina” e emocionei-me imenso». Eis dois exemplos de como Ospina foi fundamental na história recente da cinematografia latino-americana, e a razão da nossa tristeza ao ficarmos a saber do seu falecimento na semana passada. Talvez o melhor seja procurar refúgio nas palavras de Álvaro Serje Tuirán: «Luis Ospina não morreu, não se deve deixar morrer».

*Na fotografia, Luis Ospina retratado em 2009. © Karen Lamassonne.

A filmografia de Luis Ospina abrange mais de trinta títulos, entre curtas e longas-metragens, embora talvez a lista esteja incompleta. Estão os seus clássicos, desde Oiga, vea (com Carlos Mayolo, 1971), a sua primeira curta-metragem documental filmada em Cali; Agarrando pueblo (também com Mayolo, 1978), um falso documentário que denuncia a forma mercantilista de documentar a miséria (a “porno-miséria”) na América Latina através do cinema; o filme de “terror” (muito ao seu estilo) Pura sangre (1982); En busca de María (com Jorge Nieto, 1985); Adiós a Cali / ¡Ah, diosa Kali! (1990); Nuestra película (1992), sobre o pintor Lorenzo Jaramillo; Soplo de vida (1999); La desazón suprema: retrato incesante de Fernando Vallejo (2003); Un tigre de papel (2007); ou a já referida por Laura Mora, Todo comenzó por el fin (2015).

No seu cinema não cabia tudo (não cabia, por exemplo, o que ele em ocasiões chamou “a cultura da oficialidade”), mas situado nas margens podia abordar com igual paixão e conhecimento e um extraordinário domínio da técnica géneros tão dispares como os filmes de vampiros, o policial como exploração de uma verdade que está para além das reviravoltas do enredo evidente e, é claro, acima de tudo, o documentário como uma forma de dialogar com a cultura popular, a literatura e as artes plásticas. Tudo com um ácido e lúcido sentido de humor.

Formado nos Estados Unidos, nas universidades do Sul da Califórnia (USC) e na Universidade da Caifórnia em Los Angeles (UCLA), além de cineasta fundou também, juntamente com Andrés Caicedo, Carlos Mayolo e restantes membros do Grupo de Cali, o Cine Club de Cali e a revista Ojo al cine. Também publicou crónicas, ensaios e críticas em El Malpensante, Cinemateca, Kinetoscopio ou Número. Em 2007 reuniu parte dos seus textos no livro Palabras al viento. Mis sobras completas, e em 2011 apareceu o livro-homenagem Oiga/Vea. Sonidos e imágenes de Luis Ospina, assinado por vários autores.

De seguida permitimo-nos reproduzir alguns excertos dos muitos textos que foram publicados após a notícia do seu falecimento. Não só para lembrarmos que o seu legado continua aqui, mas também porque hoje, mais do que nunca, deveríamos oferecer-nos o prazer de voltar a visitá-lo. Como quem visita um amigo. Melhor: como quem se deixa convidar por um grande amigo para verem juntos um filme sabendo que este pode mudar a vida deles.

«Luis Ospina deve andar por aí com a câmara dele. Colocando o olho onde ninguém quer olhar, ouvindo quem ninguém quer ouvir. Nunca se importou de passar por incompreendido, nem se importou com os duros golpes que chegou a receber da crítica, das audiências ou do establishment. Nunca se traiu. Esteve sempre lá, com os excluídos, com os que sobram, com os que foram ignorados. Todos membros de uma bela e honrosa galeria de perdedores ilustres. Porque ele entendeu que os perdedores são sempre mais interessantes, são os que têm as melhores histórias e são quem acaba por construir o agridoce panorama da realidade nacional».

—Álvaro Serje Tuirán, documentarista, em  El Heraldo

«Há um plano de Oiga, vea que para mim resume uma boa parte da conceção que o Grupo de Cali tinha do cinema: vemos uma mulher prestes a fazer um mergulho, trepada em cima de um trampolim. Quase uma imagem apolínea tirada de um filme de Leni Riefenstahl. Então a atleta prepara-se, concentra-se, encontra a posição ideal e, mesmo quando salta, a câmara abre o zoom, ouve-se um barulho de saca-rolhas de desenhos animados e de repente ficamos de fora do cenário desportivo, rodeados pelo povo que vê tudo de longe. A mergulhadora desapareceu por trás de um muro. O trampolim vazio, como uma forma remota e abstrata. // Ospina e Mayolo só precisam de um plano para desmontar o aparato espetacular e de propaganda que significaram aqueles Jogos Pan-americanos, celebrados no meio de um estado de sítio decretado pelo presidente Misael Pastrana Borrero. Visto da nossa ótica de hoje, quando conhecemos as obsessões do cinema posterior de Ospina, esse filme vê-se como algo mais do que uma peça de agit-prop; lá estão os zombies do subdesenvolvimento, as mãos que se agarram às grades, a cidade enfeitiçada pelos misteriosos ritos celebrados dentro dos estádios”.

—Juan Cárdenas, escritor, em El País

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